Projeto Fresta (Fresta Project) 2021

Fresta é um projeto de intervenções poéticas no corpo da cidade, desenvolvido por Bruna Vettori e Mariana Fogaça, a partir do desdobramento de suas investigações artísticas individuais acerca do tempo, do gesto e da palavra em diálogo com o espaço.

O projeto propõe um olhar demorado sobre a vida e a poesia que já habitam o corpo urbano. Sugerindo a experimentação contínua de trabalhos para além do ateliê, ao encontrar relações com potenciais espaços na cidade, assim como, coincidências poéticas entre as próprias obras.

Ação primeira – Fevereiro 2021

Escultura Têxtil Germinar entre batimentos desritmados (2021)
Mariana Fogaça

Na obra Germinar entre batimentos desritmados, a ideia de coexistência, que eu venho abordando de diferentes maneiras ao longo do projeto Teu Pulsar é Também o Meu, é, aqui, concebida como análoga à trama de um tecido. Visto que cada corpo-fio, ao enlaçar-se e reenlaçar-se revela-se indissociável da concepção do corpo-trama. Tal analogia torna-se ainda mais evidente no momento em que proponho o desfazer este corpo-trama em inúmeros corpos-fio-desenlaçados.

A ação contida na desconstrução do corpo-trama faz com que o enlaçamento entre poesia bordada e tecido seja parcialmente desconstruído, uma vez que, a própria ação de destramar, faz com que o íntimo de cada palavra bordada seja atravessado. Os versos, quase abstratos, revelam-se como entranhas e cicatrizes inerentes a este corpo-não-mais-trama-ainda-trama.

O verso Germinar Entre Batimentos Desritmados, foi inspirado na perseverança da presença vegetal em ambientes demasiadamente urbanos e construídos. Levando-me a refletir sobre como a espontaneidade no ato de existir torna-se, na verdade, um ato de resistência. E foi a partir desta ideia de resistência que optei, então, por (re)bordar o verso sobre os vestígios daquele corpo-trama. Nesse momento, percebo o quanto esta mensagem ultrapassa sua ideia original e serve de inspiração para seguirmos fortes e resilientes em momentos tão difíceis como o que estamos vivendo atualmente.

Germinar entre Batimentos Desritmados, é a primeira de uma série de intervenções urbanas na qual, a partir de enxertos poéticos ao longo do tecido-urbano-predominantemente-humano, almejo destacar a resiliência da vida vegetal intrínseca ao corpo da cidade, que apesar de frequentemente marginalizada, podada e controlada, é capaz de (re)ocupar espaços através do incansável germinar de sementes e do tropismo persistente de suas raízes. Convocando-nos a questionar nossas estruturas socioambientais e, principalmente, convidando-nos a pensar sob uma nova perspectiva baseada na coexistência entre mundos construídos e naturais. Sugerindo, assim, a (re)ocupação da malha-urbana-uma-vez-natural por uma paisagem híbrida urbana-natural.


 

Ficha técnica

Germinar entre batimentos desritmados
(Esta obra também integra o Projeto Teu Pulsar é Também o Meu)
Poesia bordada com linha de algodão sobre linho desconstruído. Galho de madeira natural.
80x80cm
2021
Porto.

Diluir as Fronteiras
Bruna Vettori

Em Diluir as fronteiras, propõe-se uma reflexão acerca da desconstrução da palavra poética. Ao elaborar uma obra a partir de fragmentos de textos transcritos do meu diário, questiona-se a potência do vazio sobre o vestígio da poesia.

É na incompletude da escrita que abrigo a subjetividade do próprio gesto da pintura, percebendo as palavras como emaranhados de linhas e traços negros que deslocam a escrita para além da sua própria semântica. É pela ausência que nos damos conta da presença. Assim como as palavras, nossos silêncios também comunicam, e de modo análogo, é na própria desconstrução da legibilidade que abro espaço para novos sentidos.

Diluir as fronteiras é uma composição que resulta da continuidade de repetições: do próprio gesto de escrever e reescrever, do deslocar, transcrever, rasurar, desconstruir, rasgar e remendar, assim como a tentativa iminente de reconstruir.

A fragilidade das largas faixas de papel, suspensas por finas estruturas de metal, dá espaço para reflexões acerca da subjetividade poética da própria obra. Quanto dura a palavra suspensa? Entre as frestas e lacunas da composição, residem as perguntas sem resposta e o acúmulo dos silêncios. É a partir da sua incompletude que a obra transcende distâncias, corpos e as fronteiras da linguagem. As poesias sussurram através das manchas, traços e vestígios, são reticências sobre a vida que existe para além do que se vê.

Ficha técnica
Diluir as fronteiras
Tinta sobre papel, metal. 160x100cm
2021
Porto.

Enxertos Poéticos (2021)

Mariana Fogaça

Para ação segunda do projeto Fresta, realizada em março de 2021, dou continuidade às reflexões sobre a singular pluralidade da (co)existência. Temática que comecei a investigar, entre 2019 e 2020, no projeto Teu Pulsar é Também o Meu, no âmbito do mestrado em artes plásticas e que sigo investigando atualmente.  Por isso, nesta intervenção almejo, a partir de enxertos poéticos ao longo do tecido urbano, enaltecer a resiliência da vida vegetal intrínseca ao corpo da cidade, que apesar de muitas vezes ignorada, marginalizada, desrespeitada, podada ou controlada, é capaz de (re)ocupar espaços através do incansável germinar de sementes e do tropismo persistente de raízes antigas. Aqui, o encontro entre a trama do tecido e a poesia bordada é entendido como análogo à ideia de coexistência. Visto que cada corpo-fio, ao enlaçar-se e reenlaçar-se revela-se indissociável da concepção do corpo-trama. Desse modo, cada corpo-trama-poesia visa, não somente, destacar e integrar o agenciamento entre a malha urbana e a vida vegetal, mas sugerir um diálogo entre o observador, a espécie vegetal e o tecido urbano que os enlaça. Neste sentido, esta intervenção propõe uma nova perspectiva baseada na coexistência entre mundos construídos e naturais, entre humanos e não-humanos. Convidando-nos ao questionamento das atuais estruturas socio-ambientais, ao contemplar a (re)ocupação da malha-urbana-uma-vez-natural por uma paisagem híbrida urbana-natural. 

Visando o menor impacto ambiental possível, para esta intervenção priorizei a utilização de fibras naturais (linho e algodão), assim como, de cola 100% natural (água, farinha e vinagre). 


 

Ficha técnica

Obras:

(Co)exitir como ato de resistência,

Raízes são mais fortes que a poda,

(Re)ocupar a malha urbana-uma-vez-natural,

Existir além da delimitação imposta.

Linho, algodão e cola natural.

10x05cm cada (aproximadamente)

2021

Porto.

Palavra suspensa (2021)

Bruna Vettori

Palavra suspensa é uma intervenção realizada na segunda ação do Projeto Fresta, ocorrido no mês de março. A ação dá continuidade à minha investigação acerca da potência da poesia alojada no corpo da cidade.  

As escritas se deslocam das páginas do meu diário de artista e experienciam a materialidade a partir da forma. São frágeis esculturas elaboradas manualmente em fios de arame; entrelaçadas na paisagem urbana, compõem o espaço com teias, cascas, plantas e musgos que habitam árvores, muros e esquinas.

Na singularidade de cada escultura, percebo o desdobramento da forma também nas suas sombras; é como se as palavras ganhassem vida e agora, despertas, se estendessem para além do próprio corpo, entrelaçando-se ao ecossistema que já havia ali. No emaranhado de arames contorcidos, o sentido é maior do que a palavra é capaz de representar. Em sussurros poéticos, as escritas interagem com o vento, acompanhando o movimento sutil das plantas, galhos e folhas.

 

Há palavras por detrás das palavras. 

Há poesia em tudo que há.


 

Ficha técnica:

Palavra suspensa: estar em todo lugar que a memória me permitir

Arame

Dimensões variadas

2021

Porto.