Projeto Teu Pulsar é Também o Meu. (Project Your pulse is the same as mine) 2019-2021

TEU PULSAR É TAMBÉM O MEU.
Reflexões sobre a singular pluralidade da (co)existência.


Prática artística referente à dissertação escrita em âmbito do Mestrado em Artes Plásticas – Intermedia na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto defendido em outubro de 2020.

Agradeço imensamente à minha equipe de orientação, os artistas professores doutores Filipa Cruz e Pedro Tudela.

Vale destacar que a investigação acerca deste tema, assim como, a produção artística continua em 2021.

Teu Pulsar é Também o Meu, é um projeto artístico multidisciplinar que através de cruzamentos entre as Artes Plásticas, a Filosofia, a Antropologia e a Biologia, tem o intuito de refletir sobre a singular pluralidade da (co)existência e, quiçá, semear uma percepção intersubjetiva de compartilhamento do mundo. Por isso, neste projeto eu investigo a relação entre corpo e mundo, entre unidade e multiplicidade, entre interioridade e exterioridade, a partir de uma perspectiva singular-plural que compreende a existência como coexistência.

Nesse sentido, Teu Pulsar é Também o Meu, sugere a percepção dos limites individuais como ilusória, uma vez que corpo e mundo são, aqui, concebidos como intra- inter-conectados, ou seja, como um organismo único-múltiplo. Portanto, o mundo contemplado no íntimo do ser, tal como, por toda expansão cósmica é entendido como extensão e espaçamento dos corpos, isto é, como lugar próprio da partilha das suas variadas existências.

Apesar da minha pouca intimidade com a palavra, foi a partir da escrita poética que as primeiras reflexões sobre a relação corpo-mundo e sobre a dicotomia criada entre ser-humano e natureza, foram expressas. O homônimo poema autoral Teu Pulsar é Também o Meu, surge em 2017, mas é somente durante a minha pesquisa de mestrado em artes plásticas, em 2019 e 2020, que este poema é resgatado e este projeto amadurece e se desenvolve. Na verdade, segue se desenvolvendo, agora em 2021, visto que para além das obras apresentadas aqui, ainda existem outras em processo de desenvolvimento.

Em Teu Pulsar é Também o Meu, eu almejo, através do uso de diferentes técnicas como a fotografia, o vídeo, a instalação imersiva, a escultura, o têxtil e a escrita poética ser capaz de semear a concepção de existência, essencialmente, como coexistência. Convidando o espectador a perceber-se integral ao mundo, isto é, como um organismo singularmente plural capaz de acolher e conceber toda a forma de existência como uma extensão de si. Revogando, assim, as fronteiras entre corpo e mundo, entre humanos e não-humanos, entre “eu” e o “outro”.

Poema Teu Pulsar é Também o Meu. (2017)

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Projeção imersiva: Corpos-coexistentes (2019-2020)

Em Corpos-coexistentes eu proponho criar um ambiente imersivo, no qual o espectador possa sentir-se integral ao corpo-floresta diante de si. Para isso, foram projetadas, em uma escala semelhante à realidade, duas imagens-movimento lado a lado, formando quase que uma paisagem panorâmica. Estas imagens-movimento, por sua vez, são compostas por três diferentes fotografias de distintos ângulos deste complexo organismo florestal. Durante a projeção, as camadas que compõe ambas as fotografias, permeiam, sutilmente, umas às outras, criando a percepção de estarmos adentrando aquele corpo-floresta, pouco a pouco, no ritmo do seu próprio respirar. Em resumo, a paisagem em Corpos-coexistentes apresenta-se como um corpo-único- múltiplo com incontáveis camadas a serem percebidas e adentradas. A permeabilidade das camadas sugere, também, o constante movimento e transformação inerente ao contínuo entrelaçamento entre matéria, espaço e tempo. A ausência-presença da figura humana é revelada na imersão do espectador que, assim como, o meu próprio corpo no momento do registro fotográfico, percebe-se integral às inúmeras camadas deste corpo- nós-floresta. Por fim, a imersão proposta pela projeção faz do espaço que a acolhe extensão e reverberação do próprio corpo-floresta, bem como, do corpo-espectador.

“Imergi, por este corpo-floresta com a câmera nas mãos, por entre árvores, plantas, raízes, folhagens, troncos, musgos, pedras, pássaros, formigas, mosquitos, por todo um universo, que se sobrepunha e se desdobrava, naturalmente, diante de mim. Ao caminhar por este denso entrelaçamento de corpos-singulares, era possível ouvir sons os quais meus olhos já não alcançavam. Esta paisagem apresentava-se como um complexo organismo. Um corpo-único-múltiplo com incontáveis camadas a serem percebidas. Um cosmos: visível e invisível em sua totalidade. Um ser-com em ininterrupta regeneração e contínua coexistência. Quiçá, não somos capazes de compreender sua grandeza. No entanto, imersa naquele universo, era como se eu pudesse senti-lo em mim e percebê-lo para além de sua superfície. Esta entrega despertava, em meu corpo, uma memória- natura talvez já esquecida e que, agora, emergia por entre cachoeiras e fios de cabelo. Meu corpo parecia reconhecer-se naquele ecossistema.”


Ficha técnica:

Corpos-coexistentes
Projeção imersiva
323 x 970m
2019-2020

Escultura: Corpo-uma-vez-árvore-agora-paisagem (2019-2020)

A escultura Corpo-uma-vez-árvore-agora-paisagem debruça-se sobre o ininterrupto ciclo vital e o constante entrelaçamento entre matéria-espaço-tempo. Aqui, a matéria é compreendida inerente à concepção de corpo como singularmente plural, e, por isso, se manifestaria através de múltiplos ciclos que, quando completados, logo recomeçariam em uma constante metamorfose, fazendo com que a ideia de morte e vida partilhem do mesmo ponto de origem. Nesse sentindo, entende-se, também, a noção de tempo como duração, isto é, como um prolongamento de instantes contínuos e indivisíveis e o espaço como multidimensional.

Corpo-uma-vez-árvore-agora-paisagem nasce deste corpo-tronco ainda capaz de abrigar vida, mesmo que não mais a de seu corpo-uma-vez-árvore. Sobre e sob sua casca, cohabitam diferentes seres, entre samambaias, musgos, líquens, centopeias e pequeninas aranhas, vidas acolhidas por este corpo-agora-paisagem. O conceito de paisagem, aqui percebido como um complexo organismo formado por corpos intra-inter-conectados e dependentes, parece revelar-nos a potência deste micro-macro-cosmos “coexistencial” do qual todos nós emergimos e imergimos. 

Por outro lado, podemos considerar a presença deste corpo-escultórico, compreendido como corpo-uma-vez-árvore afastado do seu contexto natural, também, como um convite à indagação sobre a relação opressora e destrutiva que políticas industriais, extrativistas, especistas e antropocêntricas adotam perante o que é considerado como natureza. 

Por fim, eu costumo dizer que Corpo-uma-vez-árvore-agora-paisagem é uma co- criação entre este corpo-tronco e o meu próprio corpo. Ao longo deste processo de co- criação eu fiz inúmeras anotações e relatos que eu considero relevante compartilhar:

“Trabalhar sobre aquele corpo seria uma vivência completamente nova. Um desafio, talvez. Faltava-me técnica, conhecimento e, sinceramente, um pouco de coragem. Acredito, que essa experiência também seria algo novo para aquele corpo que, até então, só havia sabido ser árvore. Já no início do processo, entendi que a minha intervenção sobre aquele corpo-agora-paisagem seria mínima. Apenas a madeira jáexposta, já sem casca, seria trabalhada. Respeitei seu caráter efêmero, ao não fixar as partes da casca já soltas e ao manter todo o microcosmos, entre musgos, samambaias e centopeias, ali existente. A madeira ainda verde, repleta de seiva, não é considerada ideal para ser esculpida, pois suas fibras húmidas abrem-se em demasia. No entanto, para mim, fazia todo sentindo que aquele corpo pudesse, de certa forma, responder às minhas ações, como se estivesse a guiar minhas mãos e a dizer-me até onde eu poderia seguir. Nossos corpos-singulares entregues à presença um do outro. Deixei-me ser levada e aos poucos fui ultrapassando parte de sua pele até chegar em sua carne. Veios, nós, tons, texturas, marcas, histórias. O tempo, impresso, emergia a cada camada esculpida. Aquele corpo, agora exposto, parecia compartilhar memórias antes cultivadas. Permitia-se ser tocado, pelo universo, às avessas.

A ruptura daquele corpo-tronco com seu corpo-singular-árvore, tivera sido demasiado brusca, um destino, inesperadamente, antecipado. Por isso, queria-o longe do solo e nas alturas uma última vez. Mas, para suspendê-lo, era preciso uma última intervenção. Confesso, que no dia da perfuração tive receio de que, talvez, estivesse impondo uma vontade que julgava ser mútua. Estava receosa de ferir aquele microcosmos que, por semanas, havia preservado e cuidado. Entretanto, tive a certeza que caso esta não fosse, também, a sua vontade, logo me faria perceber, certo que eu o respeitaria.

Debruçada sobre aquele corpo-uma-vez-árvore-agora-paisagem, percebi, também, o quão desconectados muitos de nós, corpos-humanos-urbanos, estamos da pluralidade e complexidade do corpo-natura. Conhecer àquele corpo-uma-vez-árvore- agora-paisagem foi, também, conhecer-me.”


Ficha técnica

Corpo-uma-vez-árvore-agora-paisagem
Escultura em madeira com preservação da vida vegetal e animal (co)existente.
Peça única em constante transformação.
142 x 16 x 17,4 cm
2019-2020

 

Fotografia Encontro (2020)

Na fotografia Encontro, o conceito de ser-com é abordado através da intersecção destes corpos-imagens-coexistentes. Aqui, a ideia de sobreposição é entendida, não como anulação, incorporação ou soma, mas como simultaneidade existencial, ou seja, a partir do entendimento de existência como coexistência. Nesse sentido, eu trago a perspectiva do filósofo francês Jean-Luc Nancy, quando propõe a compreensão da primeira pessoa do singular como primeira pessoa do plural, isto é, a percepção do eucomo nós. E é sob esta lente que os convido a contemplar a fotografia Encontro. Como um corpo singularmente plural, uma imagem-única-múltipla capaz de revogar a ideia de fronteiras individuais, uma vez que aqui, cada corpo-montanha é percebido no e com o outro, como um ser-com-o-outro-no-mundo.

Este registro fotográfico foi feito em uma viagem muito especial pela Chapada dos Veadeiros no início de fevereiro de 2020, meses antes do mundo todo parar devido a pandemia Covid 19. Ter tido a oportunidade de realizar esta viagem, neste momento e durante a investigação do projeto Teu Pulsar é Também o Meu, parece ter potencializado ainda mais a reflexão proposta por que esta obra.

“A energia a ecoar por estes corpos-montanha é única, uma mistura de grandiosidade e acolhimento. Corpo-montanha, corpo-floresta, corpo-casa. O sol, neste momento, flerta com a possibilidade de romper as nuvens cinzas da chuva que passou. Por vezes, meu corpo-humano-infelizmente-demasiadamente-urbano se esquece de quão simples é sentir-se profundamente conectado com a diversidade natural do meio que (co)habita”.


Ficha técnica

Fotografia digital.
Edição limitada.
2020

 

Escultura têxtil  O corpo-fio não faz do traço palavra enunciada (2020)

Eu acredito que existam dois tempos distintos e muito importantes para a contemplação da obra O Corpo-fio não faz do traço palavra enunciada, o primeiro é a visualização do processo de criação e o segundo é a relação entre o corpo-escultórico e o espaço durante o momento expositivo.

Eu digo isso, porque, a ideia de coexistência, que eu venho abordando de diferentes maneiras ao longo de todo este projeto, é, aqui, concebida como análoga à trama de um tecido. Visto que cada corpo-fio, ao enlaçar-se e reenlaçar-se revela-se indissociável da concepção do corpo-trama. Esta analogia entre tecido e o conceito de coexistência se torna ainda mais evidente durante o processo de desfazer deste corpo- trama em inúmeros corpos-fio-desenlaçados, quando testemunhamos letras, palavras e poema tornarem-se versos abstratos sobre vestígios de tinta.

Quando em exposição a estrutura suspensa e quase que completamente desfeita do corpo-trama, transforma-se em um corpo aberto, frágil e delicado, que permite a si mesmo ser atravessado pelo espaço que o acolhe. Por outro lado, quando a luz incidente transpassa a porção deste corpo-não-mais-trama, parece ser capaz de expandi-lo por meio de sombras negras fortemente desenhadas no espaço. Fazendo com que corpo- escultórico e espaço sejam vistos como um corpo-único-múltiplo.


Ficha técnica:

O corpo-fio não faz do traço palavra enunciada
Poesia datilografada sobre linho desconstruído.
Peça única.
15 x 470cm.
2020.

 

Pulso (2020)

Em Pulso, são sobrepostos dois vídeos. O primeiro retrata o movimento do meu próprio corpo ao respirar e o segundo registra o encontro entre a luz do sol e o reflexo das águas de um lago sobre o corpo de uma árvore. Durante quase 5 minutos somos convidados a navegar pelo interior deste entrelaçamento de corpos-singulares. Pouco a pouco, o íntimo do corpo-humano, parece revelar-se entre troncos, folhas e o movimento água-luz. Ao percorrer todo este corpo-único-múltiplo, o movimento água-luz torna-se análogo ao fluxo da seiva nas plantas, assim como, ao fluxo de sangue no sistema circulatório animal. Por fim, a coexistência cadenciada destas imagens-movimento ao som do batimento cardíaco, sugere a revogação dos limites individuais, bem como, uma possível reflexão sobre a intra-inter-conectividade na relação corpo-mundo. Propondo a percepção do corpo-singular como singularmente plural. 


 

Ficha técnica:

Pulso

Vídeo digital.

16:9

5:42 min

2020

teu pulsar é também o meu

Exposição Teu Pulsar é Também o Meu. (2020)

Apresentação do projeto no Museu da Faculdade de Belas da Universidade do Porto em outubro de 2020.

Escultura Têxtil Germinar entre batimentos desritmados (2021)

Na obra Germinar entre batimentos desritmados, a ideia de coexistência, que eu venho abordando de diferentes maneiras ao longo do projeto Teu Pulsar é Também o Meu, é, aqui, concebida como análoga à trama de um tecido. Visto que cada corpo-fio, ao enlaçar-se e reenlaçar-se revela-se indissociável da concepção do corpo-trama. Tal analogia torna-se ainda mais evidente no momento em que proponho o desfazer este corpo-trama em inúmeros corpos-fio-desenlaçados.

A ação contida na desconstrução do corpo-trama faz com que o enlaçamento entre poesia bordada e tecido seja parcialmente desconstruído, uma vez que, a própria ação de destramar, faz com que o íntimo de cada palavra bordada seja atravessado. Os versos, quase abstratos, revelam-se como entranhas e cicatrizes inerentes a este corpo-não-mais-trama-ainda-trama.

O verso Germinar Entre Batimentos Desritmados, foi inspirado na perseverança da presença vegetal em ambientes demasiadamente urbanos e construídos. Levando-me a refletir sobre como a espontaneidade no ato de existir torna-se, na verdade, um ato de resistência. E foi a partir desta ideia de resistência que optei, então, por (re)bordar o verso sobre os vestígios daquele corpo-trama. Nesse momento, percebo o quanto esta mensagem ultrapassa sua ideia original e serve de inspiração para seguirmos fortes e resilientes em momentos tão difíceis como o que estamos vivendo atualmente.

Germinar entre Batimentos Desritmados, é a primeira de uma série de intervenções urbanas na qual, a partir de enxertos poéticos ao longo do tecido-urbano-predominantemente-humano, almejo destacar a resiliência da vida vegetal intrínseca ao corpo da cidade, que apesar de frequentemente marginalizada, podada e controlada, é capaz de (re)ocupar espaços através do incansável germinar de sementes e do tropismo persistente de suas raízes. Convocando-nos a questionar nossas estruturas socioambientais e, principalmente, convidando-nos a pensar sob uma nova perspectiva baseada na coexistência entre mundos construídos e naturais. Sugerindo, assim, a (re)ocupação da malha-urbana-uma-vez-natural por uma paisagem híbrida urbana-natural.

Intervenção urbana (2021)

Nesta intervenção almejo, a partir de enxertos poéticos ao longo do tecido urbano, enaltecer a resiliência da vida vegetal intrínseca ao corpo da cidade, que apesar de muitas vezes ignorada, marginalizada, desrespeitada, podada ou controlada, é capaz de (re)ocupar espaços através do incansável germinar de sementes e do tropismo persistente de raízes antigas. Aqui, o encontro entre a trama do tecido e a poesia bordada é entendido como análogo à ideia de coexistência. Visto que cada corpo-fio, ao enlaçar-se e reenlaçar-se revela-se indissociável da concepção do corpo-trama. Desse modo, cada corpo-trama-poesia visa, não somente, destacar e integrar o agenciamento entre a malha urbana e a vida vegetal, mas sugerir um diálogo entre o observador, a espécie vegetal e o tecido urbano que os enlaça. Neste sentido, esta intervenção propõe uma nova perspectiva baseada na coexistência entre mundos construídos e naturais, entre humanos e não-humanos. Convidando-nos ao questionamento das atuais estruturas socio-ambientais, ao contemplar a (re)ocupação da malha-urbana-uma-vez-natural por uma paisagem híbrida urbana-natural. 

Visando o menor impacto ambiental possível, para esta intervenção priorizei a utilização de fibras naturais (linho e algodão), assim como, de cola 100% natural (água, farinha e vinagre).


Ficha técnica:

Obras:

(Co)exitir como ato de resitência,

Raízes são mais fortes que a poda,

(Re)ocupar a malha urbana uma vez natural,

Existir além da delimitação imposta.

Linho, algodão e cola natural. 

10x05cm cada (aproximadamente) 

2021

Porto.

Série Corpo-fio (2021)

Na Série Corpo-Fio, assim como em O Corpo-fio não faz do traço palavra enunciada, as obras também acontecem em dois momentos, sendo o primeiro a visualização do processo criativo e o segundo a contemplação das obras já finalizadas. Entretanto, na Série Corpo-Fio, diferentemente do trabalho anterior, a relação entre tecido e poesia se dá através da palavra bordada e não datilografada. 

Mais uma vez, eu me proponho a desconstruir este corpo-trama-poesia, a partir do desconstrução do tecido. Entretanto, com a caligrafia bordada, o corpo do poema permanece inteiro e intrínseco ao corpo-não-mais-trama-ainda-trama. Os fios desenlaçados não carregam em si vestígios das palavras bordadas, como acontecia com os vestígios de tinta dos poemas datilografados. No entanto, a ação contida no desfazer do corpo-trama faz com que o enlaçamento entre poesia bordada e tecido seja parcialmente desconstruído, uma vez que, a própria ação de destramar, faz com que o íntimo de cada palavra bordada seja atravessado, transformando-as. Os versos, agora revoltos, tornam-se sutilmente abstratos e parecem ganhar uma outra leitura. Revelam-se, ao mesmo tempo, como entranhas e cicatrizes inerentes a este corpo-não-mais-trama-ainda-trama.


Versos bordados:

Ferida a Terra
por onde pulso
por onde pulsas

É preciso paciência
para que as raízes
voltem ao chão.

Mas haverá tempo?