Teu Pulsar é Também o Meu – projeto em andamento – (Your Pulse is Also Mine – work in progress)

TUAS FERIDAS
SINTO EM MINHA PELE

TEU GRITO
LIBERTO EM MINHA GARGANTA

TUA LUTA
FLORESCE EM MINHAS MÃOS

TUA FORÇA
NUTRE MINHAS VEIAS

TEU PULSAR
É TAMBÉM O MEU.


Poema: Teu Pulsar é Também o Meu.

Autoria: Mariana Fogaça

TEU PULSAR É TAMBÉM O MEU.
PRÁTICA MULTIDISCIPLINAR COMO PERCEPÇÃO DO CORPO-NATURA.


Projeto em andamento.

Estudos para dissertação do Mestrado em Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

O projeto Teu Pulsar é Também o Meu, emerge do anseio em comunicar um sentir no qual deixo de enxergar-me como ser absoluto, para entender-me como ser interligado e interdependente com o todo. Um sentir que ultrapassa os limites do meu corpo-singular, estende-se, expande-se e permeia por tudo que existe, para então, compreender-se integrada à uma existência única-múltipla-contínua. Este sentir-em-si, percebe-se como um sentir-em-nós, nós, não apenas como seres humanos, mas como toda e qualquer forma de existência. Compreende o corpo-singular como manifestação de um corpo-singular-plural, intitulado aqui como corpo-natura.

 

Designo como corpo-natura a própria existência. Corpo-natura como existência-originária em si, em nós, em tudo. Existência, exclusivamente, como coexistência. Um corpo, um ser, em que o único é sempre múltiplo, em que o outro é também parte de si (e por isso deixa de existir como outro). Corpo-natura como um ser-nós, um ser-com, em que o com é condição sine qua non para toda a existência.

 

Inerente à própria etimologia da palavra natura, está o conceito de universo, nascimento, crescimento, curso, processos corporais, essência, ser e o princípio da vida.  O corpo-natura acolhe e transita, em simultâneo, pela matéria, tempo e espaço. Em constante transformação e movimento, é extenso, complexo, cósmico, fluido, efêmero ao mesmo tempo que eterno, em sua metamorfose. Através do passado toca o presente que está sempre a recomeçar, entregue à imanência de cada instante.

 

A palavra, a poesia, sempre me encantou, mas nunca me senti a vontade, ou, talvez, capaz diante dela. Havia sempre um desconforto, uma insegurança. No entanto, foi assim que todo aquele sentir-em-nós escolheu para ser expressado, enunciado. Talvez eu estivesse sob certa influência de Saramago e a leitura de seus primeiros, e poucos, poemas, mas, pela primeira vez transbordei em versos e não em imagens.

 

Teu pulsar é também o meu. Energia singular-plural. Ser-com antes de apenas ser. Coexistência como única existência.

Teu pulsar é também o meu. Corpo único e múltiplo, que germina, se estende e acolhe. Assemblages, sementes e raízes. Complexa unidade de ininterrupta continuidade.

Teu pulsar é também o meu. Corpo-natura, fluxo constante da vida. Permeia, nutre e renasce. Teia de conexão fluida. Seiva, cursos, matéria. Ciclo vital.

Teu pulsar é também o meu. Resistência à ruptura. Descentralização do ego. Imersão. Entrega. Coexistência. Perspectivismo plural.

Teu pulsar é também o meu.

 

Como fotógrafa o registro em imagem é inerente à mim, por isso, imergi, com a câmera nas mãos, por entre árvores, plantas, raízes, folhagens, troncos, musgos, pedras, pássaros, formigas, mosquitos, por todo um universo, que sobrepunha-se e desdobrava-se, naturalmente, diante de mim. Ao caminhar por este denso entrelaçamento de corpos-singulares, era possível ouvir sons os quais meus olhos já não alcançavam. Esta paisagem apresentava-se como um complexo organismo. Um corpo-único-múltiplo com incontáveis camadas a serem percebidas. Um cosmos: visível e invisível em sua totalidade. Um ser-com em ininterrupta regeneração e contínua coexistência.

 

Aquela paisagem existia em cada fotografia, em cada imagem-única-múltipla, como na concepção de um corpo-singular-plural na qual o entrelaçar de suas camadas revelam-se a todo instante.

 

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Foi no acaso de um encontro que pude sentir aquele corpo- uma-vez-árvore, fragmentado, fragilizado, no entanto, ainda capaz de abrigar vida, mesmo que não mais a de seu corpo-singular, em mim. Sentir o ciclo vital, inerente à coexistência, que faz da morte sempre vida. Sentir o fluir deste sentir-em-nós.

 

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Já no início do processo, entendi que a minha intervenção sobre aquele corpo-agora-paisagem seria mínima. Apenas a madeira já exposta, já sem casca, seria trabalhada. Respeitei seu caráter efêmero, ao não fixar as partes da casca já soltas e ao manter todo o microcosmos, entre musgos, samambaias e centopeias, ali existente. A madeira ainda verde, repleta de seiva, não é considerada ideal para ser esculpida, pois suas fibras húmidas abrem-se em demasia. No entanto, para mim, fazia todo sentindo que aquele corpo pudesse, de certa forma, responder às minhas ações, como se estivesse a guiar minhas mãos e a dizer-me até onde eu poderia seguir. Nossos corpos-singulares entregues à presença um do outro. Deixei-me ser levada e aos poucos fui ultrapassando parte de sua pele até chegar em sua carne. Veios, nós, tons, texturas, marcas, histórias. O tempo, impresso, emergia a cada camada adentrada. Aquele corpo, agora exposto, parecia compartilhar memórias antes cultivadas. Permitia-se ser tocado, pelo universo, às avessas.

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